18h20. Está atrasado, agora deve ser moda. Tudo na minha vida vai estando algo atrasado, mas desta vez é mesmo o comboio. Boa, finalmente chegou, e a porta mais próxima está a... 10 metros de mim, e mesmo em frente a uma multidão que embala a estrutura azul enquanto se atropela para entrar, como se da sua vida se tratasse. Depois de tanta espremidela humana, acabo por conseguir entrar. Obviamente, zero lugares vagos. Ou melhor, até havia um, mas ninguém se atreveu a lá sentar-se, que o tipo que estava em frente devia ser aparentado da torre Eiffel, o que significava que qualquer um teria de ficar em posição fetal se quisesse lá alapar o rabo. Quando a sentença ao calor humano (the bad kind), à falta de oxigénio e à conversa alheia parecia certa, coloco-me estrategicamente nas escadas, fazendo uso dos saltos altos para ter acesso a ar respirável e a conseguir ocupar um volume confortável de espaço. "I'm freeeee to be whatever I, whatever I like and..." chega-me aos ouvidos, vindo de uns phones à minha frente. A princípio, irrito-me. Esta deve achar que não se ouve nada. Típico mau feitio meu. Refreio a vontade de lhe perguntar se sabe onde está o botão do volume e para que serve. Mudo a minha própria frequência. Fico com vontade de lhe perguntar se tem resto da discografia ou se é só mesmo aquela música, é que eu também gosto de Oasis. Ela, quase como se me pudesse ouvir os pensamentos, muda a música para algo irreconhecível. Foi nesse preciso momento, enquanto o rio me passava ruidosamente à frente, que decidi que eu própria não iria fazer uso do meu mp4. O calor humano, o ruído e as gargalhadas alheias, tudo era exterior a mim. Nada naquela viagem dependia de mim, nem se apanhava um lugar sentado, se o comboio parava a meio da linha, se a senhora que se sentou lá a frente ocupava dois lugares com massa gorda ou se alguém decidia mudar a música que ouvia. Ali, o meu poder recaía apenas sobre mim, sobre os meus pensamentos e sobre a sua inevitabilidade. Perdi-me neste mesmo pensamento. Os ruídos e as decisões dos outros, o calor que emanam dos corpos cansados, tudo conta a história de quem são. Tudo o que era exterior a mim estava ali, bem defronte aos meus olhos. Tinha uma posição privilegiada, a de observadora incauta. Sentia-me numa ilha, isolada do mundo, como se ninguém pudesse aplicar o mesmo processo de observação a mim mesma. Ali, nada dependia de mim. Relaxei, ouvindo e sentindo o mundo decidir por mim.
Mostrar mensagens com a etiqueta devaneios infundados. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta devaneios infundados. Mostrar todas as mensagens
18 de abril de 2012
7 de fevereiro de 2012
Quem és tu?
Entre dois goles de café bem quente, suspirou. O vidro da janela ficou prontamente embaciado, tal como os seus pensamentos. No dia anterior tinha-o visto por aquela mesma janela. Teria sido no dia anterior? Mesmo que não tenha sido, lembrava-se como se assim fosse. Ia a passos largos para a tabacaria que ficava na rua em frente, morto por matar o vício. Também ela morria por ele. A cada segundo, as suas memórias pareciam cada vez mais vívidas: o casaco claramente vestido à pressa, os passos confiantes e apressados, cabelo desajeitadamente penteado com os dedos, o jeito de abrir a porta com as costas para não ter de retirar as mãos dos bolsos e as expôr ao frio polar. Era tão simples quanto ela, mas ao mesmo tempo, tão inatingível. Quase que conseguia ver, por entre o nevoeiro que se adensava lá fora, o rasto que o calor do seu corpo tinha deixado na parede a que se encostou para fumar o seu cigarro. Com cada pormenor que a sua memória recordava, sentia que um pouco dela se tinha ido, tal como aquele cigarro. Bebe mais um gole de café para afastar a dor. O café sempre a ajudou a esquecer o que não deveria lembrar-se. Quase que adivinha ao que o pescoço dele deve cheirar, algures entre o intoxicante do seu cigarro e a simplicidade do seu sorriso. Com o último gole de café, faz um esgar ao sentir as borras a enlouquecer as suas papilas gustativas. Enquanto amaldiçoa o café por lhe ter estragado o momento, ouve tocar à porta. Não esperava ninguém. Relembrou-se que toda a gente que entra no nosso mundo é inesperada e que não passa de ninguém até um dia, para nós, se tornar em alguém. Com este pensamento em mente, abriu a porta e sorriu para o completo desconhecido.
Etiquetas:
devaneios infundados
Subscrever:
Mensagens (Atom)