16 de junho de 2012

Andando para trás

Entrei na Baixa/Chiado e sentei-me de costas. Odeio ir de costas, porra. Não gosto de ver nada a andar para trás. No meio do meu mau humor acabo por reparar numa rapariga, aí de uns 19 anos talvez, que estava junto à porta. Era muito branca, loira, bonitinha. Um olhar mais atento revela-me que tem o nariz vermelho e que está com os olhos algo inchados. Também tentava disfarçar algumas fungadelas entre o ruído incessante da carruagem. Estava obviamente a tentar controlar um choro que já a tinha assolado uns minutos antes. Olhei para ela e perdi-me a pensar no que a poderia ter colocado naquele estado. Homens, gritou o meu cérebro. São normalmente a causa de uma rapariga ficar assim. Têm o dom de nos fazer a cabeça em água, aumentando tanto a pressão intracraniana que ela escapa, qual rio salgado perto da foz, pelo local mais próximo que mais nos espelha alma. Percebi que ela estava sempre a apoiar a testa na porta da carruagem, enquanto ia mexendo os pés. Para mim, talvez sinal de algum arrependimento, nem que fosse ao nível "eu podia ter feito alguma coisa para isto não acontecer", ainda que, de facto, não pudesse. 

Claro que nunca saberei o motivo da tristeza profunda da rapariga. Não saberei se alguém na família estava doente ou se fez um exame e lhe correu mal, ou se efectivamente haveria algum cromossoma Y à mistura. A verdade é que ela saiu algumas estações depois, de cabeça baixa para evitar olhares perscrutadores e metediços como o meu. Compadeci-me com a tristeza dela, mesmo sem saber do que se trata. Todos nós já estivemos naquele estado, ainda que não fosse na carruagem do metro da linha azul. Todos nós já tivemos aquele momento em que só precisavamos que a vida andasse para trás. 

16 comentários:

Marianne disse...

Já me aconteceu várias vezes "ser essa rapariga". Não no metro mas no comboio.. Como também já observei pessoas assim e me questionei o motivo por estarem assim..
É tão interessante observar as pessoas!

Roxanne disse...

tb já me aconteceu... e pensei sempre: "espero que não vá ninguém a observar-me"...

;)

mas vai quase sempre!

sapo disse...

É só a vida a acontecer. Já me aconteceu. Com uma diferença. Não escondi.
Sou o que sou. Sinto o que sinto.

E só por isso, de vez em quando, permito-me não esconder, não dissimular as lágrimas. Afinal, não sou um robot. Que vejam e que pensem o que quiserem. Talvez quem veja perceba ou pense que os outros que nos rodeiam são pessoas. Sentem.

Turtle disse...

Marianne, aí está, já todos tivemos este momento. Eu incluída, e acho que disfarcei tão bem (ou mal) como ela.

Roxanne, irá sempre alguém a ver, escreve o que eu te digo. Pode ser é alguém mais duro ou então uma tartaruga de coração mole como eu!

sapo, é engraçado não esconderes. Está na natureza humana não dar parte fraca, admiro-te por isso!

Jedi Master Atomic disse...

Olá olá,

Esta vai ser a minha 1ª intervenção aqui. Nunca vi isto a acontecer nem nunca me aconteceu, MAS....já me aconteceu algo parecido num autocarro. Não estava a chorar, mas estava mal disposto e pronto para vomitar.

E só não veio tudo cá para fora porque contive tudo lá dentro.

Espero que esta minha 1ª impressão tenha sido positiva. loool

Turtle disse...

Jedi Master Atomic, you really know how to make an impression, é o que tenho para te dizer :P

Jedi Master Atomic disse...

Turtle,

Don't I? :P

Jedi Master Atomic disse...

É verdade, uma duvida. Tu és Tartaruga, mas és Tartaruga genial....como no Dragonball? :P

Turtle disse...

Não posso ser como o mítico tartaruga genial... tenho altura a mais e barba a menos!

Jedi Master Atomic disse...

Só isso? Então também fazes olhinhos a meninas jeitosas? loool :P

Turtle disse...

A meninas, só quando me olho ao espelho LOL

CurlyGirl disse...

Aqui vai o comentário. Já fui essa rapariga, já vi essa rapariga, já inventei histórias, já revi as minhas próprias histórias, tentando encaixá-las num rosto que não era o meu. E, apesar do sofrimento dos outros me deixar triste, é bom sentir que a humanidade ainda consegue sentir.

J. disse...

Gostei imenso de ler este texto. Já tive momentos assim, quer a conter a alma quer a observar alguém nesse estado. Faz-nos pensar que não estamos assim tão sós quanto isso...

Karina sem acento disse...

Há uns anos atrás eu "fui" essa miúda. E acabou por ser giro: um senhor que ía à minha frente virou-se para mim e disse: "deixe lá, quem quer que tivesse sido a deixá-la assim, é porque não a merece". Aquele senhor conseguiu pôr-me um sorriso na cara :)

Turtle disse...

CurlyGirl, acho que é isso. Ficamos a perceber que não somos as únicas criaturas a ter um dia mau e a sucumbir à "fraqueza" dos sentimentos.

J., ainda bem que gostaste :) se há coisa que nunca estamos é sós... heverá sempre um par de olhos, por mais discreto que seja, a conjecturar teorias. Pessoalmente, já deve ser pelo menos a 4ª ou 5ª pessoa que vejo assim nos últimos tempos. E obviamente, eu também já fui essa pessoa e alguém já deve ter conjecturado teorias sobre mim... no fundo, é um conforto saber que não vivemos isoladas numa ilha de gente robótica!

Karina sem acento, agora deixaste-me a pensar que talvez devesse ter falado à rapariga! Mas nunca tenho coragem... parece que me estou a intrometer :S

Paulo Nunes disse...

Porque é que te veio logo à cabeça que tinha de ser um homem a fazer isso? e as mulheres também não metem a cabeça de um homem em água? :P só que nós não mostramos tanto.
eu sinceramente já há muitos muitos anos que me deixei de preocupar com historias tristes, a vida continua e caso fosse um rapaz que a deixou a fez alguma coisa de mal, devia levantar a cabeça e seguir em frente! homens bons existem poucos, o problema é saber escolher.. o que cada vez mais erram e voltam a errar na e scolha dos parceiros.
:)