Andei a pensar. Eu penso demasiado. Aliás, passo a vida nisso, a pensar na coisa certa a fazer, até na coisa certa a pensar. E, na maioria das vezes, como seria de prever, estrago(me) tudo. Somos moldados a ser melhores, a almejar sermos Maiores, mais cultos, mais sábios, mais conscientes, mais humanos. Ponderar e tomar a atitude certa, agir de acordo com um certo padrão de valores, mesmo que isso signifique anular um pouco do nosso ser, engolir o nosso orgulho e deixar feridas abertas, para sararem com o tempo e nada mais, tudo em nome da "coisa certa a fazer". Contudo, a atitude certa pode ser precisamente tudo o que a antagoniza: nada menos que... a coisa errada a fazer. Errada porque é egoísta, não passa de uma posição fria e calculista. Seguir o caminho mais fácil, e não o caminho dos justos e honrados. Porque vai contra tudo o que alguma vez nos propusemos a ser. A solução é, por mais estranho e estúpido que pareça, precisamente ser o mais desumano possível. É a única que nos salvaguarda, que protege o nosso âmago e que não nos deixa cair em abismos de onde poderemos nunca regressar, porque a outra parte da equação insiste em puxar a corda. Que nos deixa sentir o que devemos, à altura certa, na quantidade certa, sem ter forças externas e moralistas a moldar o que deveríamos passar, ao invés de estarmos confinados a sentir por defeito, a obrigarmos a alma a passar por labirintos e martírios que não lhe pertencem. A única que nos traz menos dor e um alívio mais célere. Por vezes, e apenas por vezes, o certo é fazer o errado. Porque a coisa certa a fazer só o é, quando o mundo o permite.