Num acesso de pura insanidade, resolvi desbravar aquela montanha de pastas, pastinhas e montículos de papel que jaziam relaxadamente na prateleira da estante lá do fundo. O que começou por uma vontade de arranjar uma pasta minimamente organizada onde a folha com o número de eleitor e os recibos da carta de condução pudessem coexistir sem se ferirem mutuamente, acabou com o desenterrar de coisas que eu já nem me lembrava de ter feito: um trabalho sobre a Atlântida (que me deu uma trabalheira a traduzir toda uma teoria do inglês para português, mas que adorei), a minha faixa de finalista do ensino secundário com suas respectivas dedicatórias (estranho como as pessoas mais importantes não chegaram a escrever nada, mas são essas que hoje se mantêm presentes) e... bem, o bloco de folhas pautadas mais deprimente que alguma vez tive nas mãos. E fui eu que o tornei deprimente. Lá estavam coisas que nunca me atreverei a publicar, escritas em 2006 e 2007. Memórias que pensava já não existirem, sentimentos que pensava já não recordar que alguma vez foram meus. Li e reli muito do que escrevi. Unrequited love é a besta que todos sabemos, e teve a sua quota parte no tal bloco, assim como um dia particularmente péssimo que foi o meu 17º aniversário. Descobri que, no meio de palavras confusas, revoltadas e às vezes enraivecidas, acabava sempre os textos/poemas com uma frase/verso que me motivasse a seguir em frente e a aprender com os erros ou infelicidades, mas a não me deixar afundar com eles. Já caíste, já te auto-flagelaste, já sangraste o que tinhas para sangrar, agora levanta-te, ergue a cabeça e enxuga as lágrimas que te percorrem o rosto, que o melhor está ainda para vir. E veio.
Com 16/17 anos sabia fazer isto melhor que hoje, aos 20. Veio em boa altura este fantasma do meu eu-passado. Porque nós também nos sabemos ensinar a nós próprios :D
P.S.: encontrei estes junto aos textos :) só para reforçar a ideia